Ensaio sobre a cegueira
Sep 13
Das poucas vezes em que me emocionei assistindo a um filme, nenhuma foi tão sincera como hoje à noite, com a versão de “Ensaio sobre a cegueira” feita por Fernando Meirelles. Se você ainda não assistiu/leu o livro e pretende fazê-lo, talvez goste de saber que este post conterá spoillers.
Fui assistir com o Rafael Budni, e enquanto combinávamos o horário para chegar ao cinema, mandei a frase “não vai ter milhões de pessoas esperando pra assistir”, mas eu não imaginava o quão certo estaria sobre isto.
Entramos na sala, e o vazio das cadeiras vermelhas do Cinemark só não era mais estranho do que a playlist de espera. Aguardamos por cinco minutos com apenas mais duas pessoas na sala, até que o resto (não mais do que 20 pessoas) começou a entrar.
Nos traillers, notei duas coisas estranhas: 4 propagandas de carros, e 2 traillers de filmes brasileiros (à moda clássica [leia-se: escrotos ]).
Enfim o filme começou, e embora eu não lembrasse, foi igual ao livro (cheguei em casa e fui conferir): plano fechado no sinaleiro, que muda as cores até a luz verde acender e o carro do primeiro cego não se mover. Aqui se percebe outra coisa: a mão de brasileiros. O carro do primeiro cego é um Punto, da Fiat, que junto com a C&A e algum Projeto de Incentivo à Cultura, apóiam o filme. Assim sendo, as placas de todos os carros são brasileiros, e pelo que percebi, começando com a letra Z. Confesso que foi bem agradável ver isto, “me sentir em casa” e tal =D
Update: Vi no Brainstorm9 que não se trata do Punto, e sim do Linea, lançamento da Fiat.
Nesta hora, tive uma surpresa não muito agradável: o ator do primeiro cego é japonês! Na hora isto me soou muito errado, e só fui entender o motivo mais pra frente, na hora em que sua esposa vai junto com as outras mulheres “buscar” a comida. Então o perfil do personagem se encaixou perfeitamente em um nipônico.
O filme continua, e as atuações são impecáveis. A direção de arte é ótima, e a de fotografia espetacular. Não que eu seja um expert nestas áreas e saiba como analisá-las profundamente, mas o resultado dos dois foi algo que me agradou deveras, e fez com que eu agradecesse por não estar cego e poder estar ali, vendo materializado tudo aquilo que eu havia imaginado.
Lembro-me de quando estava lendo o livro, e por várias vezes tentei imaginar, sem muito sucesso, como seria ver tudo branco. Olhava para a parede branca, mas ainda sim tinha todo o resto ao redor, então o máximo que eu consegui imaginar foi a cena em que o Morpheus fala para o Neo que as pessoas viraram uma pilha de Duracell, em “Matrix”. Em “Blindness”, entretanto, isto ficou perfeito. Fernando Meirelles consegue fazer com que você se sinta dentro do “mar de leite” criado por Saramago, faz com que a “treva branca” seja terrivelmente real, enquanto o lado animal do homem ganha uma face sem nome.
A Super Interessante deste mês fez um dispensável comentário sob o título “O Bom Ruim”, dizendo que “com seu ritmo arrastado, não chega perto do original de Saramago.”. É verdade, não chega nem perto, mas dizer isto de uma adaptação de livro é clichê demais até para a Veja. Tenho que admitir, porém, que a uma certa altura do filme fiquei com medo disto ser verdade. Se não me engano, até a parte em que o velho da venda preta aparece. Personagem este, que eu gostei bastante, independente da versão. Então ele vem e diz algo como “talvez esteja na hora de uma musiquinha mesmo”, liga o seu radinho de pilha, que toca uma música totalmente inesperada, provocando uma sensação extremamente sincera e pura. O filme toma novo ritmo, e desenrola o romance sem interferir negativamente na obra. Muito pelo contrário.
As cenas em que as mulheres caminham em direção à Ala 3, onde serão estupradas em troca de comida, é tão arrematadora quanto a que a mulher do médico conta ao “cego original” que a “peixe morto” está morta. O silêncio do cego, sua face estupefata, seus olhos perdidos em alguma cor que não se sabe, quase fazem você acreditar que tenha lhe sobrado um resquício de moralidade. Cego engano, com o perdão do trocadilho.
Ao saírem do manicômio, a primeira impressão é que as filmagens continuam em São Paulo, com os metrôs e a amontoada paisagem urbana. Dois passos à frente, não mais. Um pouco adiante, isto fica confuso, num contraste com as placas de STOP e as placas de carro modelo ZZZ 9999 (coisa que também acontece no início do filme nos carros de POLICE e TAXI CAB), além de uma C&A ao lado de uma espécie de panificadora de nome francês. Lendo o Diário de Blindness, me parece que esta cena foi feita no Uruguai. Coisas que os americanos abestalhados não notariam, mas que para brasileiros pode soar confuso.
O final do filme eu me recuso a escrever, mas vale saber que é espetacular. Novamente com uma fala do velho da venda preta fazendo a diferença, e Meirelles adicionando ainda mais arte à obra.
“Ensaio sobre a Cegueira” deixou de ser apenas um dos meus livros favoritos, e passou a ser uma das coisas que me faz ter orgulho da época em que vivo. O fato de ser escrito por um português e dirigido por um brasileiro só aumenta a minha satisfação.
Só o que posso dizer, é “Fernando, estou tão feliz por ter visto este filme, como estava quando acabei de ler o livro.”.
Não entendeu? Veja o vídeo: