Sobre a Liberdade
Certa vez, Jean-Jacques Rousseau disse que “O homem nasceu livre e em toda parte é posto a ferros. Quem se julga o senhor dos outros não deixa de ser tão escravo quanto eles.” Sendo assim, o que é a Liberdade? O dicionário descreve como “Possibilidade de agir conforme a própria vontade, mas dentro dos limites da lei e das normas racionais socialmente aceitas”, e aí entramos no mérito dos TIPOS de liberdade, estudadas por Erich Fromm. Antes, porém, vale retomar o filósofo francês para entender onde começa a liberdade:
“A mais antiga de todas as sociedades e a única natural é a da família. Mesmo assim, os filhos só estão ligados ao pai enquanto precisam dele para sobreviver. Tão logo cessa tal necessidade, esse vínculo natural se dissolve. Os filhos, isentos da obediência que devem ao pai, o pai, isento dos cuidados que deve aos filhos, voltam a ser igualmente independentes. Se continuam unidos, não é mais naturalmente, é voluntariamente, e a própria família só se mantém por convenção.[...] Portanto, a família é, se quiserem, o primeiro modelo de sociedades políticas; o chefe é a imagem do pai, o povo, a imagem dos filhos, e todos, tendo nascido iguais e livres, só alienam sua liberdade em proveito próprio. A diferença é que, na família, o amor dos pais pelos filhos vale pelos cuidados que dispensa a eles, enquanto, no Estado, o prazer de comandar substitui esse amor, que o chefe não tem por seu povo.” (O Contrato Social, p24)
Em seu estudo, Erich Fromm ignora as famílias e trata a liberdade em relação aos fatores biológicos e à sociedade (uma mistura de Freud e Marx, suas principais influências), chegando a considerá-la um “fardo demasiadamente pesado de se carregar”, levando os individuos a alienarem seu direito natural à liberdade.
O texto abaixo é a tradução de um artigo que analisa a teoria de Fromm no livro Escape from Freedom. Espero que gostem.
A busca pela liberdade
“[...] liberdade tem um duplo sentido para o homem moderno: ele foi libertado das autoridades tradicionais e se tornou um ‘indivíduo’, mas ao mesmo tempo se tornou isolado, impotente e um instrumento de propósitos fora dele, alienado de si mesmo e dos outros. Além disso, este estado corrói, enfraquece, assusta e o prepara para a submissão a novos tipos de ataduras. Liberdade Positiva, por outro lado, é idêntica com a plena realização das potencialidades do indivíduo, junto com sua habilidade de viver ativa e espontaneamente.”
Liberdade – um problema?
A história americana é composta por memoráveis datas de batalhas incessantes “para ganhar liberdade das amarras políticas, econômicas e espirituais impostas aos homens.” Após o final de cada guerra, para acabar com todas as guerras, as pessoas da maior democracia do mundo não puderam evitar que o seu governo restringisse sua liberdade, atacando radicais e aliando-se com forças opressoras que limitam a liberdade em outras partes do mundo.
“Pode a liberdade tornar-se um fardo demasiado pesado para o homem suportar, que ele tenta fugir? Não haverá também, talvez, além de um desejo inato para a liberdade, uma vontade instintiva de submissão?” Fromm cita o filósofo educacional John Dewey: “A principal ameaça para a nossa democracia não é a existência de nações estrangeiras totalitárias. É a existência em nossas atitudes pessoais e dentro de nossas próprias instituições de condição, que deram a vitória para a autoridade externa [...] O campo de batalha conseqüentemente também é aqui – dentro de nós mesmos e de nossas instituições.”
A vida social e econômica molda psicologicamente as necessidades condicionadas. A fuga da liberdade também encontra “a necessidade de estar relacionado com o mundo exterior, a necessidade de evitar a solidão.” Religiosismo extremo, ultra-nacionalismo, patriotismo intenso e guerras freqüentes, não importa o quanto degradem a vida humana, conectam um indivíduo ao outro, e provêem o refúgio da isolação. ”o homem ganha mais liberdade no sentido de surgir a partir da unicidade original com o homem e a natureza, e quanto mais ele se torna um ‘indivíduo’, ele não tem outra escolha senão unir-se ao mundo na espontaneidade do amor e trabalho produtivo, ou então procurar algum tipo de segurança por tais laços com o mundo, que destrói a liberdade e integridade de sua própria pessoa.”
Surgimento do indivíduo
O mito bíblico da expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden descreve o primeiro ato de liberdade. Recusando-se a seguir as ordens de Deus, homem e mulher libertam-se da submissão, mas seu ato teve conseqüências: “A harmonia original entre homem e natureza é quebrada. Deus proclama guerra entre homem e mulher, e a guerra entre natureza e homem.” Fromm faz uma distinção crítica: “‘Liberdade de’ não é idêntica à Liberdade Positiva, a ‘liberdade para’.”
A luta contra os caprichos da natureza e a busca por cooperação ao obter recursos e segurança direcionou a humanidade a se unir em clãs e comunidades. Os laços dificultaram o desenvolvimento humano, e eventualmente resultaram em forças autocráticas dominando a vida social e econômica. A dominação completou-se na sociedade feudal, onde os servos perderam totalmente sua individualidade e liberdade. As massas escravas suprimiram seus egos e resguardaram-se como membros de um meio geral. Eles se consideraram com sorte por ter uma terra para plantar, comida para se alimentar, e estarem providos de segurança física pelos vassalos militares e reis poderosos, que os defenderam de tribos beligerantes. “A vida pessoal, econômica e social era dominada por regras e obrigações de uma esfera praticamente isenta de atividades[...] Mas embora ele não fosse uma pessoa livre no sentido moderno, também não era sozinho ou isolado[...] A ordem social foi concebida como uma ordem natural, sendo parte definitiva do homem, dando-lhe sensação de segurança e de pertença.” A Reforma Protestante e o surgimento do capitalismo lentamente devolveram a individualização e a liberdade para os ocidentais – mas isto tornou-se uma “liberdade de” ao invés de “liberdade para”.
Liberdade durante a Reforma
O Renascimento começou mais forte na Itália, devido às vantagens comerciais das rotas comerciais deste país, e os portos próximos do Oriente. Isto deu origem a uma classe rica e poderosa, “com o espírito cheio de iniciativa, poder e ambição”. Estas classes destruíram a estrutura social medieval e estimularam o surgimento de um indivíduo mais moderno. “As massas que não compartilhavam da riqueza e do poder do grupo dominante, perderam a segurança de seus antigos status e tornam-se uma massa sem face.”.
Instituições bancárias e comerciais tiveram origem na cultura Renascentista Italiana. Todavia, a situação econômica e social da Europa Central e Oeste, juntamente com as doutrinas de Lutero e Calvino, proveram o maior estímulo ao desenvolvimento do capitalismo.
“[...] Protestantismo e Calvinismo, enquanto davam expressão para um novo sentimento de liberdade, ao mesmo tempo constituíram uma fuga do fardo da liberdade. [...] Protestantismo foi a resposta para as necessidades do homem assustado, isolado, desenraizado e que tinha de orientar e de relacionar-se a um novo mundo. [...] Estas qualidades que estavam na raiz da estrutura destes personagens – compulsão pelo trabalho, paixão pela parcimônia, prontidão para fazer de sua vida uma ferramenta para propósitos de poderes extra-pessoais , ascetismo, e senso compulsivo de dever – traços característicos que se tornaram forças produtivas na sociedade capitalista e sem o qual o desenvolvimento moderno econômico e social seriam impensáveis.”
A segurança e as tradições da sociedade medieval limitam o indivíduo, e a Reforma Protestante rompeu com estes limites. Isto deu sensação de independência ao indivíduo, mas “ao mesmo tempo fez dele solitário e isolado, cheio de dúvidas e ansiedade, e impulsionou-o para uma nova submissão e para atitudes compulsivas e irracionais.”
Aspectos da Liberdade para o Homem Moderno
O capitalismo preencheu as lacunas da liberdade. A liberdade espiritual alocada pela Reforma Protestante cresceu para uma liberdade política e social. “Liberdade econômica foi a base deste desenvolvimento, a classe média foi a campeã.” As pessoas aprenderam a invocar a si mesmas, para tomar suas próprias decisões e esculpir seu bem-estar. “[...] capitalismo não só libertou o homem das ataduras tradicionais, mas contribuiu tremendamente para a liberdade positiva, para o crescimento de uma ativa, crítica auto-responsabilidade.” Mas não sem conseqüências.
O indivíduo ficou subordinado à produção capitalista e trabalhou para o lucro de todos nós, para o desenvolvimento de novos capitais de investimento e de gastos visíveis. “Ainda, enquanto o princípio de trabalho com o objetivo de acumulação de capital objetiva enormes valores para o progresso da humanidade, subjetivamente fez o homem trabalhar para fins extra-pessoais, fez dele um agente para a máquina que ele próprio construiu, e assim lhe deu um sentido de impotência e insignificância pessoal.” O capitalismo também trouxe as recessões econômicas, as guerras mundiais e o terrorismo, todos enfatizando a insignificância pessoal e o desamparo.
Mecanismos de Fuga
Após a quebra dos laços de segurança, os seres humanos tiveram que encontrar meios para superar os sentimentos de impotência e solidão. “Por um caminho que ele pode progredir para a ‘liberdade positiva’; pode relacionar-se espontaneamente com o mundo em amor e trabalho, na expressão genuína de suas capacidades emocionais, sensuais e intelectuais [...] O outro caminho aberto para ele é para retroceder, desistir de sua liberdade e tentar superar sua solidão eliminando o abismo formado entre ele e o mundo [...] Este caminho de fuga é caracterizado pelo personagem compulsivo, assim como toda fuga de pânicos ameaçadores é caracterizada pela maior ou menor rendição total do indivíduo, juntamente com sua integridade. Esta não é uma solução que leva à felicidade e à liberdade positiva.”
No Autoritarismo pessoas renderam sua liberdade, e adquiriram força integrando-se a uma ordem superior. Em uma situação autoritária, masoquismo e sadismo ajudam as pessoas a fugirem de seus sentimentos de solidão e impotência. Masoquismo objetiva “libertar o indivíduo de si mesmo, perder as estribeiras [...] libertar do fardo da liberdade.” No sadismo, o mais “forte” é dependente do mais “fraco”. “Os sádicos precisam das pessoas que estão dominando, já que o seu próprio sentimento está orientado no fato de ele ser o mestre de alguém.”
Assume-se que o autoritarismo não existe nas sociedades democráticas. “Ao invés da autoridade ostensiva, a autoridade ‘anônima’ reina. É disfarçada no senso comum, ciência, saúde psíquica, normalidade, opinião pública, e não demanda nada além da auto-evidência. Parece não usar nenhuma pressão, apenas uma leve persuasão.”
Destrutividade tende a eliminar os objetos que contribuem para o desespero do indivíduo e para o qual ele se compara com freqüência. “[...] não há quase nada que não seja usado como uma racionalização da destrutividade. Amor, dever, consciência e patriotismo têm sido e são usados como disfarces para destruir os outros ou a si mesmo.”
Conformidade autômata é o mecanismo de fuga mais usado. “[...] o indivíduo deixa de ser ele mesmo; ele adota totalmente os tipos de personalidade oferecidos a ele pelos padrões culturais; e torna-se, assim, exatamente o que os outros querem que ele seja. A discrepância entre o ‘eu’ e o mundo desaparece, e com isto, o temor pela solidão e impotência.”
Psicologia do Nazismo
O sucesso dos nazistas em ganhar adeptos e eventual controle de uma nação poderosa e intelectualmente estimulante, é uma das partes memoráveis da história. O Nazismo substituiu a República Weimar, uma das democracias e governos livres mais inspiradoras do mundo ocidental. O nacionalismo violento, espírito militar e a chamada ao patriotismo do Regime Nazista servem para lembrar que filosofias totalitárias podem ganhar o controle de uma nação democrática. “Parece que nada é mais difícil de suportar para o homem médio, que o sentimento de não se identificar com um grupo maior. Embora muitos cidadãos alemães tenham se oposto aos princípios do Nazismo, se eles tivessem que escolher entre ficar sozinho e sentir-se pertencente à Alemanha, a maioria escolheria a segunda opção.”
Liberdade e Democracia
A democracia americana libertou os cidadãos de muitas restrições externas: sexual, econômica, religiosa, social, etc. A democracia lhes deu a oportunidade de expandir suas vidas e expressarem-se em diversas áreas, mas deu o verdadeiro individualismo ou apenas a ilusão da individualidade?
“[...] Nós somos orgulhosos por não estarmos sujeitos a nenhuma autoridade externa, por sermos livres para expressar nossos pensamentos e sentimentos, e tomamos esta liberdade como garantia quase automática de nossa individualidade. O direito para expressar nossos pensamentos, entretanto, significa algo somente se formos capazes de pensar por nós mesmos; liberdade de uma autoridade externa só é um ganho se nossas condições psicológicas interiores forem capazes de estabelecer nossa própria individualidade.”
Pensamento original, espontaneidade, expressão emocional e sentimentos profundos são comumente abafados na vida americana e substituídos por uma “verdade” relativa, “uma questão de gosto.” Pensamentos e sentimentos são interiorizados, colocados no interior do exterior, guiados para a necessidade de se conformar e para uma eventual perda de identidade.
“Ao se conformar com as expectativas dos outros, ao não ser diferente, estas dúvidas sobre a identidade são silenciadas e certa segurança é ganha. Entretanto, o preço é alto. Desistindo da espontaneidade e individualidade, a vida é frustrada [...] liberdade positiva consiste na atividade espontânea do total, pessoalmente integrada.”
Fuga da Liberdade
Tempos de emergência (que são na maioria das vezes) exigem pensamentos cuidadosos, expressão natural e liberdade para pensar e agir. Ainda, nestes momentos a liberdade torna-se limitada. Uma tendência ao controle autocrítico de expressão, seguido por uma necessidade quase sadística de infligir danos aos outros, e masoquista de incitar alguém a ser infligido, ocorrem freqüentemente. Destrutividade da vida caseira e populações estrangeiras por aventuras militares são facilmente aceitas por um público automaticamente conformado.
Medo de ficar isolado das grandes massas de cidadãos, de perder sua anexação à nação, e ser acusado de não cumprimento do dever patriótico, muitos fogem da liberdade, rendendo seu poder e realização para prevenir a solidão. Eles permitem que políticas erradas coloquem suas vidas e de seus concidadãos em perigo. Seu envolvimento na vitória é comumente disfarçado para reajustar os erros danosos ocorridos no passado.
Aqueles que retêm suas convicções e respondem com espontaneidade, certamente retêm a si mesmos. Aqueles que esforçam-se em um exame mais cuidadoso, em críticas positivas das políticas, e colocam seus pensamentos expressivos antes do patriotismo desvairado, diminuem a identificação com a imagem popular, mas exibem a liberdade “para” e mantém uma identidade única.
“A vitória sobre todos os tipos de sistemas autoritários será possível somente se a democracia não se retirar, mas assumir a ofensiva e prosseguir para realizar o que tem sido o objetivo nas mentes daqueles que lutaram pela liberdade ao longo dos séculos. Ela triunfará sobre as forças do niilismo somente se puder imbuir as pessoas com fé, que é a capacidade mais forte da mente humana; a fé na vida, na verdade, e na liberdade como a realização ativa e espontânea do indivíduo.”
#1 by KonstantinMiller on July 7th, 2009
Quote
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